O xadrez geopolítico da mobilidade elétrica sofreu, nas últimas semanas, uma alteração profunda que promete redefinir as regras do jogo no Ocidente. Enquanto os Estados Unidos e a Europa têm vindo a erguer barreiras protecionistas, o Canadá decidiu seguir um caminho inverso e pragmático, abrindo as portas aos construtores chineses. No centro deste furacão comercial e tecnológico está a BYD, uma marca que não só ultrapassou a Tesla nas vendas globais, como está a deixar os veteranos da indústria automóvel de Detroit boquiabertos com a qualidade dos seus produtos de entrada.
Uma Viragem Estratégica a Norte
A decisão foi anunciada pelo primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, a 16 de janeiro: o Canadá vai reduzir drasticamente as tarifas sobre os veículos elétricos (VE) chineses, passando de uma taxa proibitiva de 100% para uns meros 6,1%. Esta medida, que revoga a postura anterior alinhada com a administração Biden, surge num contexto de negociação direta, onde Pequim concordou, em contrapartida, baixar as taxas sobre o óleo de colza canadiano para 15%.
Esta abertura não é um ato isolado. Apenas três dias antes, em Detroit, o presidente dos EUA, Donald Trump, surpreendeu ao afirmar que veria com bons olhos a instalação de fábricas de construtores chineses em solo americano. Simultaneamente, surgiram notícias de que a Ford estaria a discutir um possível acordo de fornecimento de baterias com a BYD.
O objetivo de Carney é claro: importar a “expertise” chinesa para revitalizar o setor local. “Para que o Canadá construa o seu próprio setor competitivo de VE, precisamos de aprender com parceiros inovadores, aceder às suas cadeias de abastecimento e aumentar a procura local”, afirmou o governante. O acordo prevê a entrada de até 49.000 veículos chineses por ano, número que deverá ascender a 70.000 dentro de cinco anos.
O Choque Tecnológico: “Isto não parece barato”
Mas o que justifica este receio misturado com admiração por parte do Ocidente? Para responder a essa questão, é preciso olhar para o produto. A Caresoft, uma empresa de benchmarking sediada em Detroit, decidiu importar um BYD Seagull para uma análise técnica detalhada. O veredito de John McElroy, veterano da indústria, e de Terry Woychowski, presidente da Caresoft, foi contundente.
Ao analisarem o modelo, cujo preço ronda os 11.500 dólares (aproximadamente 10.600 euros), a surpresa foi palpável. “Eu acho que toda a gente na indústria deveria estar a falar deste carro. A sério. Porque é um veículo ‘e tanto’. Ele muda a definição de barato”, sentenciou Woychowski.
A desmontagem do veículo revelou a estratégia da BYD para manter os custos baixos sem sacrificar a integridade estrutural. Um exemplo pragmático é a utilização de apenas uma escova limpa-para-brisas na frente e a ausência de uma traseira, reduzindo a complexidade de fabrico. Contudo, o verdadeiro trunfo reside na integração vertical: quase nada no Seagull é subcontratado. Painéis de carroçaria, grupos óticos, motores, baterias e eletrónica de potência são todos produzidos internamente pela marca chinesa.
Qualidade que Desafia o Preço
Contrariando o estigma de que os produtos chineses possuem fraca qualidade de construção, a análise da Caresoft destacou a perfeição das soldaduras em pontos críticos, como a bagageira. O acabamento visual é tal que a marca se deu ao luxo de poupar em revestimentos desnecessários.
Na estrada, a impressão manteve-se positiva. Embora não seja um desportivo, McElroy mostrou-se impressionado com a experiência de condução, considerando-a perfeitamente adequada para a proposta do carro. “Há muito para aprender aqui”, sublinhou Woychowski, notando que competir no mercado de elétricos a este nível de preço é um feito de engenharia “espantoso”.
É certo que o Seagull, na sua configuração atual, não cumpre todas as normas de segurança norte-americanas. No entanto, a BYD já sinalizou que está a adaptar a sua linha para cumprir os requisitos de mercados internacionais, preparando o terreno para uma expansão ainda mais agressiva.
A BYD e a Tesla na “Pole Position”
Com o novo quadro legislativo no Canadá, a Tesla deverá ser a primeira beneficiária imediata, dado que já possuía uma cadeia de abastecimento estabelecida a partir da sua fábrica de Xangai antes do agravamento das tarifas. Contudo, a BYD perfila-se como a grande vencedora a longo prazo.
Sendo atualmente a maior fabricante mundial de “Veículos de Nova Energia”, a gigante chinesa possui uma rede de distribuição robusta e fábricas espalhadas pelo globo, da Hungria ao Brasil. Aliás, o mercado brasileiro serve de exemplo do domínio da marca, onde a BYD é responsável por cerca de 80% das vendas de elétricos. Para facilitar a logística, a empresa detém até a sua própria frota de navios de carga, eliminando intermediários na exportação para novos mercados como o Canadá.
O Imperativo da Acessibilidade
A estratégia canadiana coloca uma ênfase particular na acessibilidade. O acordo estipula que, dentro de cinco anos, 50% dos VE chineses importados devem ser modelos acessíveis, com um preço inferior a 35.000 dólares canadianos. É aqui que modelos como o Seagull, que em alguns mercados é vendido por valores tão baixos quanto 8.000 dólares, se tornam fundamentais.
Enquanto a União Europeia mantém uma relação tensa com as importações chinesas e os EUA hesitam entre a segurança nacional e a necessidade de investimento, o resto do mundo parece ter decidido. Da Austrália, que abriu o mercado no final de 2022, ao Sudeste Asiático, a aceitação das marcas como a BYD, XPeng e NIO é uma realidade crescente. Resta saber se os construtores tradicionais conseguirão acompanhar esta mudança de paradigma ou se, como sugerem os analistas de Detroit, terão de se render à evidência da eficiência chinesa.
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