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16 Janeiro 2019
Formula 1 História

HISTÓRIA: Os 50 anos do motor Ford Cosworth (parte 1)

A 4 de junho de 1967 – faz hoje 50 anos – nas areias de Zandvoort, na Holanda, um rejubilante Jim Clark comemorava a sua primeira vitória do ano, num novo carro, o modelo 49. O escocês dominou a corrida, especialmente depois do seu companheiro de equipa, o inglês Graham Hill, ter tido problemas com o seu carro e acabado por abandonar. Mas, mais do que comemorar a primeira vitória do novo chassis – que iria ser um dos mais marcantes da Lotus e da Formula 1 – era saber que o motor que os propulsionava estava a abrir uma página ainda maior na história do automobilismo. Era a primeira vitória do Cosworth V8, a primeira de 155, terminada apenas dezasseis anos depois, em 1983.

Cinquenta anos depois, falo aqui da história não só do motor em si, mas também das pessoas que o ajudaram a construir, quem o construiu e quanto é que custou para o transformar num motor que iria marcar toda uma geração.

 

OS PAIS DA CRIANÇA

 

Em 1964, a CSI – a antecessora da FIA – decidiu que a partir da temporada de 1966, os motores passariam a ter 3 litros de capacidade, o dobro da potência existente então. Para muitos, bastava apenas juntar dois motores Climax e estava o trabalho feito. Mas no final de 1965, a preparadora britânica decidiu que iria abandonar o automobilismo, o que causou um enorme choque entre pilotos e construtoras. E agora, onde é que iriam arranjar um motor tão fiável como aquele?

A solução não iria ser fácil. Quando chegou a temporada de 1966, muitos decidiram que os V12 iriam ser a solução. Ferrari e Maserati construíram esses motores, enquanto que o americano Dan Gurney, que tinha decidido montar a sua própria equipa, a Eagle, decidira construir um V12 à britânica Westlake. A BRM tinha um estranho motor H16, montado de forma transversal, que de tão complicado que era, levava a frequentes quebras. A Brabham parecia que indicava o caminho, ao fazer motores V8 na preparadora local Repco, baseadas em velhos motores Oldsmobile. Mas os blocos eram envelhecidos e a sua potencialidade parecia ter chegado ao limite. Logo, outros motores teriam de aparecer.

Algures em 1966, Colin Chapman, o patrão da Lotus, tinha decidido que o V8 seria uma boa solução, mas precisava de encontrar alguém que estivesse disposto a aceitar esse projeto. Tempos antes, tinha conhecido Walter Hayes num evento social. Antigo jornalista, Hayes tinha-se tornado relações públicas na Ford Europa, ajudando a expandir as vendas da marca. Feito o serviço, tinha descoberto o automobilismo e visto o seu potencial para a publicidade, numa altura em que era pouco mais do que… artesanato. Ou seja, tudo muito primitivo.

Assim, precisava de o impulsionar. Mas, mais do que simples dinheiro e uma ou outra ação promocional, precisava de mais alguma coisa. E foi nessa altura que descobriu dois preparadores de motores, que estavam concentrados no modelo Anglia: Mike Costin e Keith Duckworth. Chapman falou com Hayes sobre o potencial de ambos os preparadores e este foi ver o que poderiam fazer. Primeiro, foi a Detroit falar com Henry Ford II, o presidente da Ford, no sentido de arranjar fundos para desenvolver dois motores: um de 1,5 litros, de quatro válvulas, para a Formula 2, e um de três litros, V8, para a Formula 1. No final, Henry Ford II (que estava envolvido no duelo com a Ferrari para vencer em Le Mans) lhe deu cem mil libras – uma soma bem grande para a época – para fazer o trabalho. Tinha começado a aventura.

 

POLITICAMENTE INCORRETO
Hayes, Costin e Duckworth decidiram primeiro construir o motor mais pequeno. Em meados de 1966, este estava pronto para correr, e o primeiro cliente foi Chapman, com os seus Lotus. O motor – FVA, sigla de Four Valves type A – tornou-se vencedor no Europeu de Formula 2 logo nesse ano, e logo depois começaram a desenvolver o motor para a Formula 1, o DFV (Double Four Valve).

Por esta altura, Costin e Duckworth já trabalhavam juntos há muito tempo. Tinham se conhecido na Lotus em 1957, e pouco depois, saíram de lá para construir a sua própria preparadora, a Cosworth, uma junção de ambos os apelidos (COS de Costin, WORTH de Duckworth). Preparando motores Ford ao longo da década de 60, colaboraram frequentemente com a Ford e com a Lotus, especialmente quando ambos fizeram o Lotus-Cortina, a versão especial do Ford Cortina, e que deu a Jim Clark o título de campeão britânico de Turismos em 1964… enquanto corria na Formula 1.

Costin e Duckworth deram-se bem, embora a fama deste último entre mecânicos e engenheiros não era fantástica. Tinha abandonado a universidade a meio, depois de ter chegado à conclusão que “decidi que a maior parte da teoria era um disparate, ou pelo menos, não era baseada em argumentos que me satisfazessem”. E quando discutia as suas ideias com outros engenheiros, normalmente… tinha razão.

Costin e Duckworth demoraram cerca de ano e meio para terem pronto o DFV V8. Tinha 410 cavalos, quatro válvulas por cilindro, com o comando das árvores de cames a ser feito através de engrenagens, em vez de correias. Tinha um injetor Lucas e sempre que o motor era metido no carro, este era aparafusado ao chassis do monocoque, para fazer parte integrante do carro, algo que não acontecia até então. Mas como a montagem tinha sido feita para facilitar a vida dos mecânicos quando tinham de trocar de motor, isso era mais uma vantagem do que um estorvo.

(continua amanhã)

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