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19 Dezembro 2018
História

HISTÓRIA: O GP dos Estados Unidos de 1973

O Campeonato do Mundo daquele chega ao fim, no circuito americano de Watkins Glen, um pequeno lugar no estado de nova Iorque, pouco mais de cem quilómetros da “Big Apple”, e todos no pelotão estavam ali para competir por puro prazer, já que os títulos tinham sido atribuídos.

Contudo, aquilo que se falava nesse momento era do futuro de Jackie Stewart. Desde há algumas semanas que se falava sobre uma eventual retirada do campeão escocês e entregar as rédeas da equipa ao seu companheiro, o francês Francois Cevért. Na realidade, só Stewart sabia do seu destino, após aquela corrida. E era este: iria retirar-se da competição, após o seu centésimo Grande Prémio, precisamente o GP americano. E era uma decisão que ele tinha tomado em Abril, e somente Ken Tyrrell sabia do assunto, e jurara guardar segredo até aí.

A corrida americana era o palco ideal para algumas equipas inscreverem terceiros carros, para jovens pilotos aproveitarem todo o seu potencial. Tyrrell e McLaren tinham feito isso no Canadá, com Chris Amon e Jody Scheckter, respectivamente, e a Shadow, com Brian Redman, a Brabham, com John Watson, e a Sutrees, com o alemão Jochen Mass. Quem voltava à Formula 1, para correr na Iso-Marlboro, dirigido por um jovem Frank Williams, era o belga Jacky Ickx.

Na sexta-feira, o Lotus de Ronnie Peterson era o mais rápido, seguido de perto pelo Tyrrell de Francois Cevért. James Hunt, no seu March que mais parecia ser outro carro, e Carlos Reutmann, no Brabham, não estavam muito longe. Jackie Stewart era quinto. No final dos treinos, Nesse dia, ele e Stewart discutiam qual era a melhor marcha para lidar a zona dos “Esses”, uma rápida combinação direita – esquerda, no qual o escocês o abordava com a quinta marcha, enquanto que o francês usava a quarta, para ganhar potência para ganhar segundos preciosos. Stewart tinha uma boa razão pela qual queria fazer aquela zona com uma rotação mais baixa: ali, o asfalto era mais ondulado e propenso a erros. E naquele dia, o carro estava mais nervoso do que o costume…

No final da noite, Stewart convida Cevért e Ronnie Peterson para um jantar, onde os conta acerca dos seus planos para o futuro.

No dia seguinte, os treinos continuam. Peterson e Cevért lutavam entre si para ver quem ficaria com a pole-position. O sueco tinha vantagem durante o ano, pois conseguira oito pole-positions, enquanto que o francês não tinha conseguido nenhuma. Então, poucos minutos antes do meio-dia, Cevért fez a sua última tentativa. Tudo corria bem até chegar à zona dos “Esses”, onde o seu estilo de condução fez usar a quarta marcha, quando o carro fez a curva à esquerda. De repente, o carro perde o controlo, bate o guarda-rail à direita, faz ricochete, vira para a esquerda, e bate no guarda-rail oposto, a um ângulo de 90 graus. O impacto faz voltar o carro de pernas para o ar, arrastando-se por mais de cem metros. Teve morte imediata.

O primeiro a chegar foi José Carlos Pace, que por coincidência, fazia 29 anos nesse dia. Dizem que quando viu o estrago feito, abandonou o local de lágrimas nos olhos. Logo a seguir, veio o sul-africano Jody Scheckter, no McLaren numero zero, que teve a mesma reacção. Depois apareceu Jackie Stewart, que disse isto, anos depois: “Os socorristas nem se deram ao trabalho de tirar os seus kits, porque via-se logo que estava morto”. Cevert tinha o corpo lacerado, e a causa da morte teria sido degolação, no momento do impacto com os rails de protecção.

De facto, aquelas lâminas estavam mal colocadas, logo, seriam “armas” fatais para um carro descontrolado. Os pilotos tinham reclamado disso no dia anterior, mas pouco ou nada tinha sido feito.

Quando os treinos recomeçaram, Stewart voltou à pista, numa tentativa de saber por si mesmo a razão do acidente. Logo descobriu que o seu estilo de condução, combinado com o nervosismo do carro, o irregular asfalto daquela zona e a falta de escapatórias, teria sido o factor decisivo do acidente.

Pouco tempo depois, Jackie Stewart anunciaria à imprensa em geral que se iria retirar da competição, com efeito imediato. Disse também que era uma decisão pensada há muito, e que só Ken Tyrrell é que sabia. Mas no dia anterior, já tinha contado isso a Cevért e a Peterson, num jantar que tinham tido juntos num restaurante da zona. O resto do mundo só iria saber no Domingo, quando o escocês completasse o seu centésimo Grande Prémio. Nada disso aconteceu. A Tyrrell retirou os seus carros da corrida, em sinal de luto.

Pela tarde, os treinos continuaram, e Ronnie Peterson confirmou a “pole-position”, com o Brabham de Carlos Reutmann a seu lado. Na segunda fila, estava o Lotus de Emerson Fittipaldi, tendo a seu lado o March de James Hunt. Com o quinto lugar vago, o sexto era para o Surtees de Mike Hailwood, e na sétima posição ficava o McLaren de Peter Revson, o melhor americano do pelotão. Hulme era o oitavo, e a fechar o “top-ten” ficaram o Surtees de José Carlos Pace e o terceiro McLaren de Jody Scheckter.

Na corrida, cerca de cem mil pessoas tinham ido para assistir ao último Grande Premio da temporada. Provavelmente alguns estariam a ler os jornais do dia, onde se noticiava, para além da trágica morte de Cevért, os acontecimentos que se passavam na Península do Sinai, onde as tropas egípcias, lideradas pelo General (e Presidente) Anwar Sadat, atacavam as tropas israelitas, naquilo que se chamou depois de a Guerra do Yom Kippur…

Na partida, Peterson foi para a frente, com Reutmann, Hunt, Fittipaldi e Hailwood atrás. Peter Revson falhara a partida e caíra para último, partindo para aquele que viria a ser uma corrida de recuperação. As coisas mantiveram-se assim até à quarta volta, altura em que Hunt passa o argentino e começou a perseguir o sueco da Lotus, uma perseguição que iria durar toda a corrida, com margens que raramente ultrapassavam o 1.4 segundos. Era algo surpreendente, para uma equipa novata, e para um piloto novato, mas muito talentoso…

Entretanto, mais atrás, Fittipaldi sofria com maus pneus, e teve que ir às boxes, depois de uma incursão pela relva causado pelo despiste do McLaren de Jody Scheckter. Peter Revson continuava a sua miraculosa recuperação, e a meio da corrida, já era sétimo classificado, e entrava nos pontos, depois da paragem de Fittipaldi nas boxes, para trocar de pneus.

No final da corrida, Hunt achou que era altura de atacar a liderança de Peterson, mas o carro, à medida que ficava mais leve, ficava mais subvirador nas curvas, o que impedia de atacar a liderança do sueco. Mas continuou a pressionar, para ver se ele errava, mas nada disso aconteceu. No final, Peterson vencia com uma vantagem de 0.6 segundos sobre Hunt, uma das mais curtas que a Formula 1 tinha assistido até então. Reutmann, quase sem combustível, chegou na terceira posição, enquanto que Hulme era quarto. Peter Revson, que se iria despedir da McLaren nessa corrida, acabava em quinto, à frente de Emerson Fittipaldi.

No final, a Lotus ficava com o título de Construtores. Mas o pelotão da Formula 1 ficava abalada por mais uma morte no seu seio, poucos meses depois de Roger Williamson, e essa fatalidade tinha que acontecer a um dos seus elementos mais queridos. A Tyrrell, que ficara subitamente sem referências, tinha que refazer a sua equipa do zero para 1974, mas outros duelos estavam a surgir no horizonte, com outros protagonistas.

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