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16 Janeiro 2019
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HISTÓRIA: Jochen Rindt, 75 anos

Se fosse vivo, Jochen Rindt estaria a completar 75 anos. O piloto austríaco, um dos melhores do seu tempo, correu entre 1964 e 1970 em equipas como Cooper, Brabham e Lotus, vencendo seis corridas, fazendo dez pole-positions e conseguindo três voltas mais rápidas. O austríaco ia a caminho de um imparável título mundial quando sofreu o seu acidente fatal, e 5 de setembro de 1970, durante o fim de semana do GP de Itália. No final, acabaria por se sagrar campeão do mundo a título póstumo, o único até agora.

Mas para além disso, Rindt foi também o vencedor das 24 Horas de Le Mans em 1965, ao lado do americano Masten Gregory, também sendo o último a ganhar a bordo de uma Ferrari. Os seus duelos com pilotos como Jackie Stewart ficaram na memória de muitos que viram pela televisão, no final dos anos 60.

Hoje, recordamos a sua vida e carreira.

ORFÃO

Karl Jochen Rindt nasceu na cidade alemã de Mainz a 18 de abril de 1942, filho de pai alemão e mãe austríaca. A sua mãe tinha sido tenista na sua juventude, mas ambos eram estudantes de Direito quando Jochen nasceu. Ele tinha um irmão mais velho, Uwe, vindo da sua mãe. Contudo, não conviveu muito com eles, pois em julho de 1943, morreram trágicamente durante o bombardeio da cidade de Hamburgo pelos Aliados. Ambos tinham uma fábrica em Mainz, que ele herdou quando os seus avós morreram. Criado pelos seus avós, em Graz, ele manteve a nacionalidade alemã, apesar de ter corrido com licença desportiva da Áustria. E quando ele começou a ter sucesso, acabou por ir viver para a Suíça, com Stewart como vizinho.

O primeiro contacto de Rindt com a velocidade tinha sido aos 16 anos, quando arranjou uma lambreta, andando depois em pistas de motocross com os seus amigos em Graz. Um deles era Helmut Marko, que depois o seguiu nas suas pisadas, enquanto estudava Direito. O automobilismo era a única coisa do qual ele era bom, pois os seus resultados académicos eram maus. Para piorar as coisas, o seu comportamento era tal que já tinha sido expulso de algumas escolas. Em 1960, aos 18 anos, comprara o seu primeiro automóvel: um Volkswagen Carocha.

As suas primeiras corridas foram no ano seguinte, um Simca Abarth que pertencia à sua avó, sem grandes resultados, e logo a seguir, passou para um Alfa Romeo GT 1300, onde começou a vencer provas locais. Em 1963, passou para a Formula Junior, numa parceria com Karl Bardy-Barry, onde começou a dar nas vistas pela sua velocidade… e pela sua condução perigosa. Em Cesenatico, em Itália, Rindt aproveitou um acidente para conseguir passar entre os fardos de palha e uma ambulância, numa manobra altamente arriscada. Compensou, porque acabou por vencer.

ENTRADA NA FORMULA 1 E VITÓRIA EM LE MANS

Em 1964, ainda com Bardy-Barry, vai para a Formula 2, guiando Brabham-Cosworths, que eram um pouco mais lentos do que os Cooper-Climax. Lenda conta-se que, quando soube da falta de potência dos motores, respondeu com um “então, travo dois metros mais tarde”. Em maio desse ano, venceu em Londres, adiante de Graham Hill, e pouco tempo depois, em agosto, inscreveu-se para o GP da Austria, a bordo de um velho Brabham BT11, com motor Climax da Rob Walker Racing, numa pista desenhada à volta do aeródromo de Zeltweg. A corrida para ele acabou na volta 68, quando a sua coluna de direção quebrou devido às irregularidades da pista de cimento.

Nesse ano, tinha-se estreado nas 24 horas de Le Mans, fazendo dupla com David Piper, num Ferrari 250 LM, mas desistiu ainda antes de ele poder andar no carro. No ano seguinte, fez dupla com o americano Masten Gregory num Ferrari 250 LM, inscrito pela North American Racing Team, de Luigi Chinetti. Ninguém esperava que eles vencessem… nem mesmo os próprios pilotos, que queriam guiar o que mais podiam até que o carro quebrasse. E esteve muito perto de acontecer, pois uma certa altura, Gregory trouxe o carro em seis cilindros e as reparações duraram meia hora. Rindt chegou a trocar para roupas civis, convencido que o carro estava acabado.

Mas não. Trocado novamente de roupa, o austríaco correu de pedal a fundo, passando de 18º a terceiro no inicio da amanhã, depois de ter corrido a noite inteira. No final, a sua vitória foi considerada como uma das mais imprevisíveis da história de Le Mans. E a última que a Ferrari conseguiu, antes que a ford os batesse no ano seguinte.

COOPER E BRABHAM

Em 1965, Rindt foi para a Cooper, conseguindo os seus primeiros pontos na Alemanha, e no ano seguinte, a equipa passou a ter motores Maserati V12, pois tinha entrado em vigor o novo regulamento de motores, os de 3 litros. Em Spa-Francochamps, no meio da confusão daquela corrida, conseguiu o seu primeiro pódio, um segundo lugar. Consegue o terceiro lugar em Nurburgring e o segundo posto em Watkins Glen, acabando a temporada com 24 pontos e o terceiro lugar do campeonato, depois dos Brabham de Jack Brabham e Dennis Hulme.

No ano seguinte, a temporada foi mais complicada, com apenas dois quartos lugares como melhores resultados, mas em 1968 passou para a Brabham, em substituição de Dennis Hulme, que foi para a McLaren. Ali, conseguiu a sua primeira pole-position, em França, repetindo o feito no Canadá. Contudo, apenas dois terceiros lugares foram os seus resultados nessa temporada.

Contudo, a sua velocidade tinha sido mais do que suficiente para convencer Colin Chapman, dono da Lotus, de que ele era o substituto ideal para Jim Clark, morto em abril daquele ano em Hockenheim, numa prova de Formula 2. Indeciso entre ficar e aceitar a proposta, Brabham disse-lhe: “Se queres ser campeão do mundo, então vai para a Lotus. Agora, se queres sobreviver, ficas na Brabham”.

UM RELACIONAMENTO TENSO

Rindt aceitou a proposta da Lotus para correr com eles na temporada de 1969, ao lado de Graham Hill, o campeão do mundo. O modelo 49 já tinha duas temporadas, mas ainda era o melhor carro do pelotão, e as chances de ele conseguir bons resultados e lutar pela vitória eram legitimas. Mas tirando as poles em Espanha e na Holanda, não tinha pontuado nas quatro primeiras corridas do ano. E para piorar, em Montjuich, teve um forte acidente contra os guard-rails, devido à quebra da sua asa traseira, que lhe partiu o nariz. Rindt alertou para a periculosidade dos seus carros a Chapman, numa carta que também enviou para a Autosport britânica, que a publicou.

A sua relação com Chapman era tensa. Numa entrevista à televisão austriaca, questionado sobre quando é que tinha perdido a confiança nele, respondeu: “Nunca tive confiança”. Rindt disse que a relação era puramente pessoal, mas Chapman acreditava no potencial do austríaco. Depois da FIA ter regulamentado as asas, Rindt esteve em várias corridas em duelo contra Jackie Stewart, especialmente na Grã-Bretanha, onde duelaram durante grande parte da corrida, até que o piloto da Lotus atrasou-se e foi quarto.

No final, venceu em Watkins Glen, a corrida mais lucrativa do ano. Com o prémio da vitória, 50 mil dólares, construiu uma casa ao lado da de Stewart, na zona de Genebra. Ali, vivia com a sua mulher, a finlandesa Nina Lincoln, e a sua filha Natasha, nascida um ano antes.

O SEU MELHOR ANO

Em 1970, com Hill de fora – recuperava de um acidente em Watkins Glen, onde tinha fraturado as suas pernas – Rindt esperava um ano melhor. A Lotus projetava um novo carro, o modelo 72, que Chapman decidiu estrear em Espanha. Contudo, quando ele entrou no carro e saiu para a pista, não percorreu mais de 200 matros até se despistar e acabar na gravilha. Furioso, voltou para as boxes e gritou para Chapman: “Nunca mais volto a guiar esta m****!

Foi com o velho 49 que guiou no GP do Mónaco. A corrida ficou marcado pelo duelo com o veterano e seu ex-companheiro de equipa, Jack Brabham, que prendeu todos os que estavam a ver quer na pista, quer na televisão. No final, a corrida foi decidida na última curva, quando Brabham falhou a travagem, permitindo que Rindt o passasse naquele local. Ninguém esperava isso, num mesmo o diretor de corrida, que o viu passar sem lhe mostrar a bandeira de xadrez!

Rindt passou para o modelo 72 a partir do GP da Holanda, em junho, e ali voltou a vencer. Contudo, a prova ficou marcada pelo acidente mortal do seu amigo Piers Courage, que sofreu um acidente mortal a bordo do De Tomaso inscrito por Frank Williams. Abalado, pensou seriamente em retirar-se.

Mas apesar de tudo, a partir dali, foram só vitórias: Clermont-Ferrand (GP de França), Brands Hatch (GP da Grã-Bretanha) e Hockenheim (GP da Alemanha). Por essa altura, Rindt tinha 45 pontos e o segundo classificado, Jack Brabham, estava vinte pontos atrás de si. Bastava mais uma vitória nas quatro corridas que se seguiam para se tornar campeão do mundo.

A sua primeira chance foi “correndo em casa” em Zeltweg, num veloz circuito construido nos arredores. Mas nessa altura, os Ferrari estavam a ser melhores, graças ao belga Jacky Ickx e o suíço Clay Regazzoni. Ambos fizeram dobradinha, enquanto que Rindt desisti com um motor partido.

O MOMENTO FATAL

Mesmo assim, Rindt poderia ser campeão do mundo em Monza, a corrida seguinte, pois a diferença tinha-se mantido nos vinte pontos. A Lotus tinha mais um piloto, o brasileiro Emerson Fittipaldi, e tinha três modelos 72 paa os seus pilotos. Nessa altura, os pilotos tiravam as asas nessa pista, pois bastava a potência do motor para serem mais velozes. Certa vez, Rindt disse que sem asas “tinha mais 800 rpm nas retas”. Apesar de terem mais velocidade, o perigo espreitava, pois havia componentes frágeis nesse carro, e os veios dos travões eram um deles.

Na sexta-feira, a Lotus tinha apanhado um susto, quando Fittipaldi perdeu o controlo do seu carro e saiu de pista, sem consequências. John Miles, outro dos pilotos da equipa, não queria correr sem as asas, mas teve de o fazer contrariado. No dia seguinte, 5 de setembro, Rindt voltava a correr sem as asas, para ver se conseguia o melhor tempo possivel. A ideia era de chegar a cerca de 330 km/hora à Parabolica, e depois de cinco voltas, estava a chegar ao mesmo local quando perdeu o controlo do carro.

Quem testemunhou tudo foi Dennis Hulme, no seu McLaren, que contou:

“Jochen estava a seguir-me por algumas voltas e a apanhar-me lentamente, passando-me na segunda Lesmo. Quando chegamos à Parabólica, eu seguia-o e estava à espera de chegar aos 200 metros para colocar o pé no travão. de repente, o carro guinou, primeiro para a direita, depois para a esquerda, direito do guard-rail”

Um veio dos travões tinha quebrado, fazendo com que o carro guinasse e fosse na direção do guard-rail. No embate, o carro rodopiou e parou na gravilha. A frente estava destruida, vendo-se as pernas do piloto, mas na realidade, Rindt acabou por morrer devido a cortes profundos no pescoço, causados pelo facto de se ter afundado nos cintos de segurança. Ele tinha o hábito de não apertar o ponto da virilha – o sistema já era de cinco pontos – porque queria sair depressa do seu carro em caso de incêndio. Rindt ainda foi transportado para o hospital de Milão, mas morreu pelo caminho. Tinha 28 anos.

LEGADO

A morte de Rindt abalou a Áustria. A Lotus retirou-se da corrida em sinal de luto e só voltou a correr no GP dos Estados Unidos, numa corrida ganha por Emerson Fittipaldi. Isso foi mais do que suficiente para que o seu companheiro morto conseguisse o título mundial, apesar da recuperação de Jacky Ickx, que venceu no Canadá e no México, mas conseguiu apenas um quarto lugar na corrida americana.

Colin Chapman esteve em maus lençois por anos. Evitava ir a Itália, receando ser preso, e os carros eram inscritos com outro nome, para evitarem ser apreendidos pelas autoridades locais. Só em 1976 é que saiu ilibado. O chassis fatal ainda existe, guardado numa garagem em Milão.

Rindt foi sepultado no Zentralfridehof de Graz, a sua terra de adopção. Jo Bonnier, amigo pessoal e que acabaria por morrer ano e meio depois nas 24 horas de Le Mans, fez o elogio fúnebre, afirmando:

“Morrer fazendo aquilo que ama é morrer feliz. E Jochen tinha o respeito e admiração de todos nós, a única maneira que temos para admirar um grande piloto e um amigo. Independentemente do que acontecer daqui por diante, para todos nós, ele é o campeão do mundo”.

A 18 de novembro desse ano, Jackie Stewart entregou o troféu de campeão a Nina Rindt.

A Áustria não demorou muito para encontrar o seu sucessor. O seu amigo Helmut Marko venceu no ano seguinte as 24 Horas de Le Mans e correu em algumas corridas de formula 1 até ter tido um fim permaturo no GP de França de 1972, quando uma pedra quebrou o seu visor e o fez cegar do olho esquerdo. Dois anos depois, Niki Lauda chegava à Ferrari e começava a sua carreira vitoriosa que o fez conquistar três títulos mundiais. E hoje em dia, a Red Bull, com sede em Salzburgo, com oficinas em Milton Keynes, ajudou a consolidar a reputação austríaca no automobilismo.

 

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